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ARTICULOS PASADOS
J. S. Martins

Bolivia: quemar naves o
desplegar velas
La experiencia latinoamericana indica que Evo Morales -por sus discursos
antes y después de la asunción formal a la Presidencia de Bolivia- tiene los
días contados. Por mucho menos fueron derrocados, o muertos, otros
dirigentes. La percepción de los pueblos, no obstante, también dice otra
cosa: tal vez haya llegado la hora no de resistir sino de avanzar.
(28-01-06)
"La
política estadounidense en la región andina*
Carta de Profesores de
Universidad de EEUU censurando política exterior de su país y Plan Colombia
(27-01-06)
Lula, o bispo e o fórum
(18-01-06)
Dom Tomás Balduino,
Una Carta de Bolívia
(18-01-06)
Roxana Liendo
Hacia una Bolivia incluydente -
(06-01-06)
Por Abraham Colque,
Reitor do ISEAT - Instituto
Superior Ecuménico Andino de Teología, en La Paz, Bolivia
Carta de
João Pedro Stédile sobre visita a Dom Pedro Casaldáliga
(02-01-06)
A economia moral do décimo terceiro salário
(10-12-05)
Por
José de Souza Martins *
Las banderas de lucha de Jesús de Nazaret
(30-11-05)
Reflexión sobre Mateo 25: 34-50*
Por Roberto Pineda
Los indígenas siguen en medio
del conflicto
(30-11-05)
Mientras aumentan los
asesinatos selectivos contra las autoridades tradicionales de los pueblos
indígenas, se agravan el desplazamiento forzado y el confinamiento de esta
población. Territorialmente, son víctimas del conflicto especialmente en las
zonas de control de los distintos grupos armados y sus corredores
estratégicos.
O não e o vazio (13-11-05)
Por Marcos Rolim
A fé e a política à beira do rio
(10-11-05)
Por José de Souza Martins
Bush y el ALCA sufrieron duro
traspié en Mar del Plata
(10-11-05)
La Declaración final contiene dos posturas en pugna: una presentada por
Panamá, pero originada en Estados Unidos, y que fue defendida ardorosamente
por México,sostiene que un grupo de países "no encuentran ningún obstáculo
en continuar las negociaciones dentro del ALCA, según como está en este
momento".
Movimiento negro toma
iglesia en Bogotá
(10-11-05)
Educación y utilización de
tierras tradicionales de las comunidades por empresas multinacionales están
entre los temas levantados por los grupos afrodescendientes
por
Maria Eugênia Sá y Vinicius Souza
Bush en AL. La arrogancia del Imperio
Mientras el autodesignado emisario de Dios provocaba la indignación
de los sectores progresistas, la extrema derecha estadounidense e
internacional estaba jubilosa por el nombramiento del católico conservador
Samuel Alito en la Suprema Corte de Justicia estadounidense
(07-11-05)
Escucha el clamor de tu pueblo
Desde la III Cumbre de los Pueblos les reclamaremos y les exigiremos
estar al servicio de los pueblos y no del capital financiero que privilegian
por sobre el capital humano y el derecho de los pueblos
(07-11-05)
Indígenas e discriminação
Testemunho sobre a situação indígena brasileira ao Relator Especial
da ONU sobre Formas Contemporâneas de Racismo, Discriminação Racial,
Xenofobia e Intolerância relacionada à questão racial
(28-10-05)
Por
Sr. Doudou Diène
Paradoxos e desafios de um Referendo
Os que não
acreditavam que houvesse no Brasil uma enorme onda direitista -conservadora,
racista e repressiva-, devem considerar com toda atenção a campanha e os
resultados do referendo
(26-10-05)
Por Emir Sader
Referendo: Avanços e recuos
O pós-referendo nos convida a entrarmos em uma luta
pacífica. A prevenção da segurança pode ser um caminho a percorrermos
(26-10-05)
Por Artur Peregrino
A violência que assola o país
No domingo, votarei SIM, a favor da proibição da venda de armas e
munições.(22-10-05)
Referendo: use a cabeça!
Precisamos saber o que significa o SIM, e o que significa o NÃO, no
contexto deste referendo. Para não acontecer de votar o contrário do que
queremos
(22-10-05)
Referendo sobre o desarmamento
O “SIM” à vida na visão filosófica de
Hobbes e Bobbio
Por Marcelo Cunha
(21-10-05)
"O mesmo e os mesmos". As vítimas de
outubro
Reflexões sobre as vítimas e seus responsáveis, sobre o que nos exigem e
também sobre o que nos oferecem, se nos abrimos ao mistério da vida
(14-10-05)
Da greve de fome à irrupção popular
O histórico
evento, entretanto, fez irromper um novo sujeito político no cenário
nacional: o povo do semi-árido (14-10-05)
Sim, a resposta é sim!
A sociedade
precisa de uma chance para inscrever, na alma
das novas gerações, marcas mais positivas para a resolução de conflitos, ou
seja, uma chance para ir além da violência e da injustiça.
Por Ricardo Fiegenbaum,
jornalista (10/10/2005) - rizifi@terra.com.br
Sete teses equivocadas sobre a criminalidade e a
violência (10/10/05)
Masculinidad dominante y ansiedad
El desafío de vivir como varones
creyentes y serenos
Por Amílcar Ulloa
A
esperança vencendo a decepção
Dom Pedro Casaldáliga
Dios, Katrina y Bush
El desafío del huracán Katrina ha dejado al descubierto lo que nuestra
sabiduría Indoamericana siempre nos ha dicho: solo cuando el último árbol
esté muerto, el último río envenenado y el último pez atrapado, te darás
cuenta que no puedes comer dinero.
El Alto: un mundo nuevo desde la diferencia
La insurrección de octubre de 2003, que derribó al
presidente Gonzalo Sánchez de Lozada y trabó la continuidad del modelo
neoliberal en Bolivia, iluminó la existencia de una sociedad alterna que
tiene su mayor desarrollo entre los aymaras del entorno del Lago Titicaca, y
en la ciudad de El Alto su mayor exponente. (02-09-05)
TENDÊNCIAS/DEBATES
Lula, o bispo e
o fórum
DOM TOMÁS BALDUINO
Dom Luiz Cappio, o bispo de
Barra (BA) que fez aquela greve de fome em Cabrobó, às margens do São
Francisco, contra a transposição do rio, teve uma audiência com o presidente
Lula em meados de dezembro. Por insistência de dom Luiz, participei do
encontro.
A conversa, no Palácio do
Planalto, durou mais de duas horas. O bispo, primeiro de viva voz, depois
entregando uma série de escritos, deu dez razões "por que somos contrários
ao projeto de transposição do rio São Francisco". Do lado do governo, da
boca do presidente Lula, veio esta declaração: "Não posso tirar a
transposição".
Das anotações que fiz no
evento consta o registro de uma insistente pergunta de Lula ao bispo, a
mesma feita em quatro momentos daquele diálogo: "Qual é o seu fórum?". Dom
Luiz, com a sabedoria do pastor e com a humildade de Francisco de Assis,
preferiu guardar silêncio. Não respondeu à pergunta.
Eu sou testemunha do que
antecedeu a Cabrobó, do que aconteceu lá e do que eclodiu no sertão depois
daquela greve de fome. É por isso que tomo a liberdade de responder a essa
pergunta de Lula, que acho muito pertinente e plausível.
Uma observação preliminar.
Naquela sala da Presidência da República, dom Luiz falou com a energia e a
virulência dos profetas. Isso ensejou no presidente uma viva reação e, no
ministro Ciro Gomes, um desabafo pouco sereno. A verdade é que, em torno
daquela mesa do presidente, não deve ser muito comum comparecer gente, como
esse bispo, falando face a face, com franqueza, sem bajulação hipócrita, mas
em cujo íntimo, por todos nós conhecido, mantém a mais sincera admiração, a
mais profunda estima e a maior expectativa pelo nosso presidente.
E qual é o fórum? O fórum ao
qual dom Luiz está ligado não é nenhum poder do tipo midiático, capaz de
estabelecer uma correlação de forças com o poder que está aí. E, respondendo
a indagações precisas de Lula, diria que o fórum não são as assinaturas aos
milhões, pois delas haveria de fato dos dois lados. Não são os movimentos
sociais, pelas mesmas razões. Nem são os bispos da CNBB, infelizmente
divididos nesta questão. Não são tampouco os técnicos posicionados em
trincheiras opostas.
Esse fórum é o povo pobre do
semi-árido. É a gente pela qual o frei resolveu dedicar a sua vida desde a
juventude. Ainda na condição de frade, caminhou a pé por toda a bacia do São
Francisco e penetrou no semi-árido setentrional. Ia visitando toda aquela
gente, família por família, olhando sua difícil situação, escutando seus
clamores. Ia confortando-os e, sobretudo, infundindo-lhes um novo ânimo, uma
nova esperança a partir deles mesmos, de sua autocompreensão e auto-estima,
não mais como objetos da manipulação dos políticos, mas como dignos
sujeitos, autores e destinatários de sua própria história.
São os índios, os negros
quilombolas, os camponeses, os homens e as mulheres do sertão em busca da
terra e das águas de viver, trabalhar e conviver. São os que não têm nem voz
nem vez, abandonados, jamais ouvidos pelas autoridades. São as vítimas da
violência dos grandes, os despejados pelo latifúndio e pelo agronegócio, os
atingidos e deportados pelos grandes projetos, muitas vezes com a conivência
do poder público.
Essa caminhada do dom frei
Luiz Cappio com os pobres do semi-árido já tem cerca de 20 anos. Ora, tudo
parecia muito calmo e normal, quando, de repente, a paisagem do sertão
mudou. A partir do momento em que esses sertanejos viram o bispo colocar
radicalmente a sua própria vida pela vida deles e pela vida do rio São
Francisco, acorreram pressurosos ao santuário de Cabrobó. No dia 4 de
outubro, já eram cerca de 3.000 em torno da minúscula capela de são
Sebastião. Passando em fila diante do frei peregrino, iam abraçá-lo e
receber sua bênção. E outros sertanejos se juntaram a ele no mesmo gesto de
greve de fome. Na verdade, esse fórum dos pobres, hoje, não depende mais do
bispo, nem este pretende ser seu procurador. Dom Luiz foi sua referência
inicial e simbólica, como um Gandhi do sertão, ou melhor, como um novo Padre
Cícero, o servidor de um povo não laico, mas religioso e político.
Os que se levantaram a partir
desse gesto estão caminhando com as próprias pernas em busca de algo mais
que terra. Estão em busca de uma radical transformação. Essa gente começou a
se mobilizar lúcida e corajosamente em assembléias. Primeiro ali mesmo, em
Cabrobó, no dia 4 de outubro. Depois, em Juazeiro da Bahia, em Bom Jesus da
Lapa, em Brasília, e assim por diante, com uma nutrida agenda, que envolve
outras organizações de apoio, mas com seu inconfundível protagonismo.
Este fórum ultrapassa o São
Francisco, vai muito além dos semi-áridos meridional e setentrional. Na
realidade, ele tem rosto de Brasil, tem dimensão de América Latina. Este
povo, com efeito, não surgiu agora. Ele tem uma longa e sofrida história de
séculos de lutas e de revoluções, de conquistas, de revezes e de
resistência. Este povo é o verdadeiro inspirador da opção solidária e
patriótica de dom Luiz Cappio, bem como da opção de outros muitos e muitos
mais.
Este é o povo do futuro! É
este o fórum!
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Dom Tomás Balduino, 84,
mestre em teologia e pós-graduado em antropologia e lingüística, bispo
emérito da Diocese de Goiás, é o presidente da CPT (Comissão Pastoral da
Terra), órgão vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
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Una Carta de
Bolívia
Queridos amigos y amigas,
Ha pasado el día de las
elecciones. La victoria contundente de Evo nos tiene sorprendidos, alegres y
asustados. Sorprendidos, por su dimensión. Nunca, ningún candidato había
logrado ese porcentaje definitivo que permite que Evo sea gobierno con el
respaldo de la mayor parte del pueblo. Lógico, se puede pensar, si sabemos
que Bolivia tiene una importante población indígena. No tanto, cuando uno
sabe que ha sido una identidad discriminada y marginada. Tan sólo hace 50
años que los indios pueden votar, y al principio sólo votaron.
Desde la Participación
Popular en 1996, es que recién se ve una presencia fuerte, visible como
elegidos. En estos últimos años, ha habido un crecimiento importante en la
autoestima indígena. Cuando el cambio del apellido indígena, ocultar la
procedencia rural, tratar de occidentalizar los rasgos, eran imprescindibles
para no sufrir exclusión. El tiempo de la vergüenza ha terminado.
Alegres, porque este triunfo
se ha logrado en procesos democráticos y en paz. Procesos de avance sin
detenerse, retrocediendo a veces, pero avanzando, combinando protesta con
propuesta. Jugando en cancha ajena, con reglas que no siempre se comprenden
bien. Alegres porque los bolivianos hemos aprendido a reconocer nuestra cara
indígena y a valorar a los despreciados. Asustados, por la gran
responsabilidad que tenemos de no defraudar las ilusiones y los sueños de la
gente. Hay esperanza, hay fe, no podemos darnos el lujo de fallar.
Está en juego más que
nuestras visiones, está en juego la vida buena, la dignidad. Al final,
quiero destacar lo dicho por Evo, su padre y su madre fue el sindicato
cocalero, la organización, que lo ha guiado y reflexionado, donde él supo
cumplir el camino, el t’aki de las viejas raíces, donde se aprende a mandar
obedeciendo y por el bien de la comunidad. Esta vez por el bien de Bolivia.
Quise compartir esto con
ustedes, compañeros y compañeras de sueños, de luchas, y ahora de la
victoria. Necesitaremos su ayuda para hacer entender en sus sociedades lo
que está pasando en Bolivia. Sean nuestros portavoces en la lejanía, hagan
que compartan nuestros sueños, nuestra victoria y nuestra historia.
Roxana Liendo
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Carta de João Pedro
Stédile sobre visita a Dom Pedro Casaldáliga
Sao Paulo, 30 de dezembro de
2005
Estimados compas, de nosso
querido Movimento,
Estou aproveitando as ultimas
horas desse longo e dificil 2005, para lhes contar, que estive nesses dias
visitando nosso querido Dom Pedro Casaldáliga. Fui a Sao Felix do Araguaia.
Pedro, como quer que lhe chamem, havia me convidado muitas vezes, desde os
tempos de cpt, e mais recentemente para participar de eventos com
professores da Prelazia. Infelizmente nunca havia podido, por outros
compromissos assumidos. Mas sempre tive muita vontade de ir lá visitá-lo e
me sentia em dívida. Então, aproveitei esses dias mais calmos de final de
ano, para ir visitar nosso querido Pedro, que tantas lições nos tem dado.
O meio.. Pra começar, não
tinha a mínima idéia de como seria a cidade de Sao felix do Araguaia. Pedro
a conhece como sua casa. Chegou lá no final da década de 60, depois de 7
dias de caminhão. Nem municipio era. Agora, ainda é uma pequena cidade de
não mais de sete mil habitantes, nas margens do Rio Araguaia. Está no norte
do Mato Grosso, no fim da linha. Do outro lado, a ilha do Bananal habitada
por 16 povos indígenas, estado de Tocantins. Para chegar lá de onibus,
somente depois de 26 horas de estrada, saindo de Goiania, ou num voo
proibitivo de caro, que sai duas vezes por semana de Brasilia.
A Prelazia é enorme do ponto
de vista geográfico, quase do tamanho de Sergipe. Tem 15 municipios, pouca
população e muitos latifundios. A população se divide, entre os originários
povos indigenas que sempre habitaram as margens dos piscosos rios da região,
os caboclos ribeirinhos, que nas ultimas décadas vinham do nordeste em busca
de um lugar ao sol, sossegado. Na década de 70, chegou o capital para se
apoderar de suas terras e formar grandes latifúndios, com fazendas de até
300 mil hectares. Seus proprietários não vieram. Ficaram em Goiania, Cuiabá
e São paulo. Mas mandaram a opressão, o capataz, a violencia, os pistoleiros
e o trabalho escravo, que ainda, surpreendemente, existem na região. E nas
ultimas tres décadas vieram tambem muitos migrantes sulistas, gaúchos,
paranaenses, sonhando com terra para trabalhar. Esse é o mundo de Pedro.
Nesse mundão perdido, no mapa
do Brasil e em meio a tantas injustiças, Pedro sempre esteve ao lado dos
pobres: indios, caboclos, peões, sem-terras, trabalhadores escravizados,
migrantes pobres do sul. E intransigentemente esteve sempre contra: o
latifundio, a opressão e o capitalista que veio do sul. Ele e seus colegas
missionários, pagaram caro. Nos tempos impunes da ditadura, muitos pagaram
com a própria vida essa opção: Padre Francisco Jentel, Padre Joao Bosco
(assassinado por um policial que o confundiu com Pedro). Outros não
aguentaram tantas pressões e partiram. Mas não foi em vão. São Felix não se
transformou numa imensa fazenda. Lá houve resistencia e há agora, povo
organizado e consciente.
Sempre defendeu de que as
injustiças somente se combatem com a organizaçao do próprio povo, e o papel
da igreja era e deve ser um serviço permanente para a organização do povo.
Assim fez em sua Prelazia, na igreja de São Felix, e assim fez com sua
influencia profética ao ajudar organizar o conselho indigenista missionario,CIMI
e a comissão pastoral da terra. Ambos, como ele mesmo gosta de reafirmar,
para ser apenas igreja a serviço da organização dos pobres.
As mudanças Pedro se dedicou
incansavelmente a esse trabalho conscientizador, organizador, como um
verdadeiro pastor no meio e junto com seu povo, desde 1971. Em 2005, vencido
pela idade, ao completar 75 anos, pediu demissão do cargo de bispo, como
manda o direito canônico. Houve tensão na igreja de São Felix e entre seus
amigos e aliados de todo Brasil. A poderosa Roma não ouvia ninguem. Como
todos os impérios, tem muro nos ouvidos. Sabe-se que chegaram a sondar
quatro bispos para irem morar por lá. Mas para morar no meio povo e
respeitar sua caminhada, é preciso ser um bispo especial. Um dos possíveis
consultados, chegou a exigir que antes, Pedro deveria mudar-se de residencia
e saisse da prelazia. Uma afronta, logo repelida por toda comunidade.
Finalmente, foi designado outro Bispo, Dom Leonardo Steiner, franciscano,
que soube compreender a caminhada do povo de São Felix, se integrou a ela, e
está residindo na mesma casa com Pedro e seus colegas de missão.
O descanso..do incansável.
Fui a São Felix visitar um
mestre. Um profeta. Um poeta. Um amigo. Um lutador do povo brasileiro. Sabia
que o mal de parkison o estava maltratando e o impedia de realizar viagens.
Sabia de suas tonturas e dores de cabeça, que o maltratam tanto. Mas nada
disso o está impedindo de seguir nos dando lições de vida. Já não pode
viajar. E mais uma vez deu testemunho de sua coerencia com o povo. Poderia
ter escolhido algum convento, na sua Catalunha, ou em alguma capital
brasileira, mais proximo de atenções médicas e de elogios ao seu passado.
Pois permaneceu na mesma casa, com os meus colegas, com os mesmos vizinhos,
com as mesmas conversas, com as mesmas visitas quotidianas, com o mesmo voar
dos morcegos noturnos, com o mesmo cantarolar dos galos na madrugada, com os
mesmos pés de manga nativos.. enfim, com o mesmo povo, que o ama tanto. E a
quem dedicou toda sua vida. Então porque sair agora, se ele é de São Felix ?
Vi, na visita, que segue com
suas reflexões proféticas, analisando com clareza invejável os caminhos da
igreja, os caminhos de nosso povo. Continua acreditando mais do que nunca,
de que somente o povo organizado pode conquistar mudanças. Continuam
acreditando mais do que nunca de que somente a mobilização do povo pode e
deve mover montanhas. As montanhas da exploração, das injustiças, da
dependencia externa, do capital estrangeiro, da divida externa, do
latifundio, dos bancos, dos juros...
Segue lutando e denunciando
que a raiz de todos os males na terra está na existencia do latifundio.
"Nada pode justificar o latifundio. Nós devemos lutar sempre até extirpar o
latifundio de nossa sociedade", prega.
Tem a coragem, com toda sua
moral de bispo, pastor e teologo da libertação de anunciar a todos os quatro
ventos de que " o capitalismo é eníquo, injusto, desumano. E por tanto,
anti-cristão."
E com tanta sabedoria, segue
encontrando tempo, para colocar seus pensamentos em versos e poemas. Grande
poeta que é. Mesmo que os dedos nao lhe ajudem a digitar no computador, mas
a mente sana, não lhe falha, na hora de colocar em versos verdades e
sentimentos. Me deu de presente, com muita paixão, um livreto recem
publicado pelas edições loyola, que traz a reprodução de todas as pinturas
muralistas que estimulou fossem feitas, em cada uma das igrejas da prelazia.
E para cada pintura, lá está um poema. Revelador. Recomendo a todos buscarem
nas livrarias. (Murais da Libertação - prelazia de São Felix do Araguaia)
Conheci de longe Dom Pedro
Casaldaliga, quando ainda nos tempos da ditadura, multiplicavamos em
mimeógrafo e distibuíamos clandestinamente entre os estudantes da PUC do Rio
Grande um poema de Dom pedro, homenageando ao Che. Ficava imaginando
naqueles tempos.. como pode um bispo fazer uma poema de homenagem ao Che?
Ficava comparando-o na minha imaginação, como se fosse aqueles comandantes
estereotipados pela esquerda, vestido de verde olivo, alto, forte,
discursando para guerrilheiros.
Alguns anos mais tarde, o
conheci pessoalmente, atraves de um amigo comum, Irmão Cecchin, quando nos
veio visitar na grande Porto Alegre, e foi pregar, humildemente numa
ocupação urbana de Canoas. De lá, fomos para nosso acampamento na
encruzilhada natalino, que havia resistido e derrotado o famigerado Coronel
Curió, que tambem atormetava o trabalho pastoral na amazônia de Pedro. E lá
no acampamento, ergueu sua voz, e disso nunca me esqueci, pôs a mão sobre o
evangelho, no meio da celebração, e disse: "meus irmãos! em nome de Jesus de
Nazaré, em nome do Deus libertador, eu, bispo de São Felix, lhes asseguro e
lhes prometo, que se vos manteis unidos, conquistarão a terra, que sonhais,
e que é de todos e todas !"
Foi a têmpera que nos
faltava, depois de quase dois anos acampados. O Bispo nos assegurou em nome
de Deus, que se nos mantivéssemos organizados, conquistariamos a terra!
E ele tinha razão. Todos os
que se mantiveram acampados na encruzilhada, conquistaram terra. E sempre
voltei a repetir isso a todas as familias acampadas, ao longo desses 21 anos
de existencia do Movimento sem terra, sobretudo quando bate o desânimo entre
aqueles que sofrem mais, lutando debaixo de lonas pretas..ao longo dos
latifundios e das estradas brasileiras.
Nesses anos todos de luta
pela reforma agraria, Pedro se manteve sempre com uma coerência total ao
lado dos sem terra, dos posseiros, dos povos indigenas. Sempre com sua
palavra de ânimo. Em anos passados, estando em São Paulo, e assistindo a
campanha difamatória que a grande imprensa fazia contra o nosso movimento,
Pedro não titubeou, e de publico na coletiva de imprensa disse:~"Bendito
seja, o MST!. Se ele não existisse, teriamos que cria-lo, para que a missão
de justiça se cumpra."
Agora, fui lá dar um abraço a
esse mestre. Fui lá visitar um poeta, um pai, um irmão, um profeta. Fui lá
visitar um grande companheiro. Que nos deu tantas lições de vida. Levei a
ele um abraço, não apenas pessoal. Levei o carinho de toda militancia do MST.
Quis levar a gratidão de todos os sem-terra que tem consciencia de sua luta
e resistem debaixo das lonas pretas, por esse Brasil afora...
Pedro não precisa mais
viajar. Nós viajaremos por ele. Pedro não precisa mais pregar para os
pobres. Suas lições de vida são o exemplo, para todos militantes sociais do
povo brasileiro.
Voltei de São felix com as
baterias recarregadas, de animo, de esperança, de perserverança. Voltei de
São Felix de alma lavada, e abençoada por nosso mestre e seu exemplo.
Prometi a ele, que nossa militancia jamais se esqueceria de suas lições de
vida.
Por isso, quis compartilhar
com todos voces, essa minha visita
Um grande abraço Joao Pedro
|
A
economia moral do décimo terceiro salário
Publicado em O Estado de S.
Paulo [Caderno Aliás, A semana revista, p. J5], domingo, 4 de dezembro de
2005.
José de Souza Martins *
MILTON FUKUDA/AE
O décimo terceiro salário se
constituiu num fator de animação do mercado, no plano geral da economia, e
de promoção da felicidade geral da nação, no plano pessoal dos que tem
direito a ele. Num cenário de desemprego e incerteza não há razão para
questionar o que parece sobreposição da dádiva paternalista a um direito.
Esse benvindo salário
extraordinário é o produto de uma poupança que beneficia os empregados, mas
também os empregadores. A estes porque forma um fundo ao longo do ano para
que, em dezembro, possam fazer o pagamento que é de lei. À medida que o
fundo cresce, podem usar como capital próprio esse capital de terceiros.
Aos empregados o décimo
terceiro salário beneficia como poupança forçada. Se recebessem todo mês uma
fração do décimo terceiro salário, esse dinheiro provavelmente desapareceria
no feijão-com-arroz da economia do centavo da vida cotidiana. Recebendo o
acumulado no fim do ano, o assalariado pode destinar o dinheiro ao consumo
de bens duráveis, como a televisão, a geladeira, o fogão, o aparelho de som,
o móvel e até mesmo a prestação do carro. A força desse salário é muito mais
simbólica do que econômica porque é dinheiro que assegura a aquisição dos
bens do consumo conspícuo, que no imaginário popular representam a chamada
inclusão social. É pouco provável que alguém se considere excluído quando
pode comprar o aparelho de televisão, o rádio, a bicicleta, mesmo que lhe
falte o pão nosso de cada dia.
Esse consumo represado desova
na economia um efeito multiplicador sazonal de renda e emprego. Com isso, em
vez de uma economia que flui ao longo do ano, temos uma economia espasmódica
que soluça lucros e alegrias nas semanas que encerram o ano, uma espécie de
primavera fora de época no sempre cinzento ciclo econômico regular.
O décimo terceiro salário foi
uma conquista dos trabalhadores. Quando se tornou obrigatório por lei, em
meados dos anos 60, não só foi um benefício aos que nada recebiam de
adicional na época natalina, como substituiu uma variedade de doações
espontâneas dos empregadores.
Era comum a cesta de Natal,
não raro um engodo. Natal é o tempo da gratuidade e do excepcional. Muitas
cestas tinham, porém, apenas coisas do cotidiano. Ninguém as recusava, que a
cavalo dado não se olham os dentes. Mas, no fundo. ofendia. Era apenas
simulacro da fartura desejada, a da leitoa assada.
Algumas empresas já concediam
o abono de Natal, quase sempre um salário integral. Isso disseminava a
expectativa de que todos os trabalhadores tinham direito a um salário
adicional todo ano, no tempo das festas. Sua falta deixava a impressão de um
misto de pão-durismo e de desrespeito a um direito que muito depressa se
difundiu na economia moral dos trabalhadores urbanos. A obrigatoriedade
legal desse pagamento democratizou um direito que nasceu e se robusteceu no
acaso das invenções sociais circunscritas a empresas determinadas,
geralmente de ponta.
Mas o décimo terceiro salário
é um desses direitos sociais nascidos da tradição, e não da revolução, que
marcam a sociedade contemporânea. O sociólogo T. H. Marshall e o historiador
E. P. Thompson já demonstraram a importância que teve no advento dos
direitos sociais na Inglaterra capitalista, a invocação dos direitos do
costume e da tradição por parte dos trabalhadores das corporações de ofício
para se protegerem em face das mudanças desagregadoras da economia
industrial nascente. Atenuavam, assim, as privações decorrentes do fim de
uma sociedade organizada sobre a base de privilégios estamentais e não de
direitos. As supostas irracionalidades dos sentimentos, da memória e da
tradição acabaram promovendo inovações econômicas e sociais que, de outro
modo, não ocorreriam.
Mas em nosso caso, a tradição
foi inventada. As corporações de ofício e os privilégios correspondentes da
tradição foram muito frágeis entre nós. O escravismo criou antes as relações
sociais violentas da dominação pessoal e o paternalismo compensatório das
doações arbitrárias e não de privilégios dos que trabalhavam.
Não tínhamos a tradição da
dádiva por ocasião do Natal, a não ser o presente para as crianças. O que em
várias regiões e situações era no dia dos Santos Reis, 6 de janeiro. Papai
Noel e o presente natalino são produtos de importação cultural, de cuja
chegada há sinais em São Paulo no fim do século 19. Como havia também o
costume das crianças baterem de porta em porta, na manhã de 1° de janeiro,
para desejar bom ano novo às famílias e receber em troca uma moeda. Era a
troca simbólica da moeda do adulto impuro e culpado dos pecados do ano velho
pela primícia do voto de bom ano novo da criança inocente, então considerada
anjo até os 7 anos de idade, mesmo que futuro diabinho. Muitos de nós fomos
atores dessas formas rituais ingênuas de assegurar a continuidade da
sociedade e da vida. Era esse um rito de reinauguração do tempo, de
recomeço, de vida nova. Nossa concepção do tempo social era ainda dominada
pela idéia de ciclos, de fins e começos, que nos vem do passado agrícola.
Perdemos a memória antiga
dessa cerimônia, mas não perdemos os seus benefícios, que agora estão
consubstanciados na forma monetária do décimo terceiro salário. O salário
adicional do tempo das festas estendeu o benefício da dádiva aos adultos e
trouxe a todos uma certa alegria de criança. Mergulhou-nos na festa postiça
e moderna do tempo linear, sem sobressaltos nem interrupções propriamente
rituais, que é o tempo do cálculo e das quantidades, das finitudes
definitivas. Tirou-nos a certeza ritual dos recomeços e nos deu em troca a
certeza modesta e consumista do a mais. O ano novo se diluiu na linearidade
quantitativa do ano velho.
Com o décimo terceiro-salário
a doação tornou-se direito e obrigação, democratizou a dádiva, livrou-a do
passado. Mas não aboliu a força simbólica e política da tradição, mesmo
inventada, também em nossa sociedade fonte da impolítica legitimidade de
direitos sociais à nossa maneira.
*José de Souza
Martins é sociólogo e professor da Universidade de São
Paulo
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O não e o vazio
Marcos Rolim
marcos@rolim.com.br
Jornalista
Independente das opiniões que
sempre menosprezaram o referendo e o trataram como uma “manipulação” ou uma
“farsa”, vivemos no Brasil, com a consulta, uma radical experiência
democrática que nos amadurece como nação e que deveria ser saudada por
todos. O resultado, neste caso, importa menos que o processo e as
verdadeiras conquistas deste referendo – o debate em torno da segurança
pública, o destaque conferido ao vetor das armas de fogo em suas correlações
com homicídios, suicídios e acidentes e a promoção do tema ao centro da
agenda política - não podem ser medidas pelas urnas.
A vitória do ‘NÃO” pode ser
interpretada de várias formas. Ela aglutinou posições muito distintas, da
extrema direita, à extrema-esquerda, de Jair Bolsonaro à Luciana Genro, da
TFP ao PSTU. Houve gente do PT fazendo campanha pelo “NÃO” e gente do PT que
“não foi encontrada”. Houve um sincero voto liberal no “NÃO” que expressou
um princípio de não intervenção do Estado, houve um voto do medo de uma
cidadania abandonada e descrente, um voto de intolerância de uma elite
proponente da violência e um voto de protesto contra a situação a que
chegamos na área da segurança pública, contra a incompetência dos governos,
contra as frustrações políticas que se acumulam e que alcançaram seu ápice
com a crise moral que engolfou o PT. Houve de tudo, então. Acredito,
entretanto, que o aspecto decisivo da opção pelo “NÃO” expresse muito mais
um receio do que uma opção pelas armas. A grande maioria dos eleitores não
se convenceu de que a proibição do comércio de armas poderia agregar
benefícios a sua segurança. Pelo contrário, foi convencida de que a medida
poderia piorar a situação e, por isso, marcou “NÃO”. Se foi isso o que
ocorreu, então as tentativas de atribuir ao resultado uma clara opção
política devem ser vistas com reservas.
Durante toda a campanha em
favor do SIM, em dezenas de debates, textos e entrevistas, insisti muito no
exemplo de Diadema onde uma competente política de segurança assegurou
extraordinária redução das taxas de homicídio. Diadema, que já foi a cidade
mais violenta de São Paulo, desenvolveu um estudo científico sobre o perfil
dos seus homicídios, descobrindo que o abuso do álcool estava associado à
maioria das ocorrências. Após um amplo processo de discussão com a
população, a cidade construiu uma lei que determinou o fechamento de todos
os bares às 23h. (uma medida que, aliás, caracteriza o Reino Unido há muito
tempo sem que ninguém por lá tenha invocado o “direito de comprar bebida
alcoólica após as 23h”). Esta e outras iniciativas fizeram com que, em 3
anos, a taxa de homicídios em Diadema diminuísse 57%. Falo, então, de uma
cidade onde há uma política de segurança pública e onde o governo é do PT.
Pois, em Diadema, ganhou o SIM. Lá, simplesmente, não funcionou tentar
“colar” o referendo ao governo, assim como não funcionou estimular o medo
das pessoas porque a maioria da população se sente segura e confia no gestor
de segurança pública que fez campanha pelo SIM.
O “NÃO” pode ter vários
significados, é claro, mas é provável que ele traduza, sobretudo, o
desconforto e a angústia diante do vazio de políticas de segurança pública
no Brasil. O que o país descobriu com este referendo é que chegamos a um
limite. A pilha de votos NÃO, neste sentido, está dentro do abismo
construído pela incompetência dos gestores na área. Não por outro motivo,
aliás, a pilha foi maior onde o abismo é maior.
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A fé e a política à
beira do rio
José de Souza Martins *
A greve de fome do bispo de
Barra (Bahia) representa muito mais do que o protesto solitário de um
religioso inconformado com o projeto de transposição de águas do rio São
Francisco. Essa greve resume, e está longe de encerrar, o processo histórico
do advento da religião e dos religiosos como protagonistas de ação política
no Brasil moderno. Trata-se de um cenário complicado em que está em jogo
mais do que um protesto radical contra uma ação de governo.
O envolvimento da Igreja
Católica no questionamento do governo ganhou consistência e se
institucionalizou durante o regime militar, quando os partidos políticos
foram fragilizados, a diversidade partidária foi mutilada e a expressão
política do povo brasileiro ficou reduzida à opção contra o governo ou a
favor do governo.O inconformismo popular buscou e encontrou alternativas de
ação política nas igrejas. Desde então a religião se mesclou com a política
e comprometeu antes do nascimento o campo de atuação dos partidos que
surgiriam com o declínio do regime autoritário.
Desde o início da década de
setenta, a Igreja Católica vinha montando a rede de suas pastorais sociais,
como o Conselho Indigenista Missionário e a Comissão Pastoral da Terra, além
da Pastoral Operária. Agia em nome da defesa dos direitos humanos de
populações gravemente atingidas pelas ações do governo no favorecimento
subsidiado do grande capital na ocupação da Amazônia. E, também, na política
salarial que reduziu substantivamente as condições de vida da classe
trabalhadora. É a época da intensa expansão do número de favelas nas grandes
cidades. A engenharia da pobreza tornava o Brasil um país competitivo em
face das florescentes economias da Ásia.
As comunidades de base e as
concepções da Teologia da Libertação se difundiram pela rede altamente
organizada, eficiente e corajosa dessas mediações eclesiais, convidando os
católicos, e também algumas igrejas protestantes históricas, como a
Luterana, à ação política inspirada na fé. Essa mudança criou canais de
manifestação e de luta social para populações que no geral estavam à margem
da política e dos partidos, historicamente condenadas à manifestação do
inconformismo social através dos movimentos messiânicos e milenaristas e
através do chamado banditismo social.
Durante todo o tempo da
ditadura ainda surgiram movimentos messiânicos no centro-oeste e na
Amazônia, como o movimento religioso de Maria da Praia, bem como bandoleiros
sociais, identificados com os pobres, no estilo de Antônio Silvino, como
Chapéu de Couro, em Pernambuco, e Quintino, no Maranhão. A Igreja, pela
primeira vez, não hostilizou esses movimentos, ao mesmo tempo em que criou
as bases alternativas que menciono e que fizeram com que a multidão dos
descontentes, sobretudo no campo, pudesse se expressar no âmbito da política
sem abrir mão de sua fé e de sua religiosidade antiga e simples.
Não fosse isso, muito
provavelmente teríamos recuado às formas primitivas de descontentamento
social que prevaleceram até os primeiros anos da Revolução de 1930. A ação
da Igreja foi a grande responsável, embora não a única, pela redução da
incidência política do clientelismo sertanejo de base patrimonial. Se houve
alguma modernização política neste país, ela se deve também à Igreja, embora
modernização conservadora.
Os partidos políticos, sem
exceção, ficaram longe dessa radical mudança tanto na concepção de povo como
na concepção de política e de ação política. Mesmo o PT, que foi
arbitrariamente escolhido para representar na política o povo de Deus, como
é chamado, não tem a menor idéia do que é isso, simplesmente parasitando da
maneira mais descaradamente oportunista esse novo e estranho sujeito
político, sem consultá-lo, sem ouvi-lo, sem entendê-lo, sem desejá-lo no
foro das decisões políticas efetivas. Lula os definiu como xiitas. Apenas
colhendo seus votos, numa espécie de coronelismo de esquerda, tão de direita
quanto o dos coronéis do sertão.
O proclamado silêncio dos
intelectuais petistas revelou-se particularmente grave na incapacidade, ou
mesmo desdém ou desinteresse, de conhecer, compreender e interpretar essa
novidade política, e no desprezo pela voz e pelos textos dos que desvendavam
com riqueza de detalhes o advento de novos e decisivos sujeitos do processo
político brasileiro. É especialmente o caso dos diferentes grupos de
organização política mobilizados pela militância católica, como o MST. A
alocação de postos secundários, decorativos e irrelevantes no governo a
representantes da facção religiosa do partido foi a forma oportunista de
vetá-los. Tardiamente, vários nomes representativos desse grupo começaram a
perceber a trama e a deixar o governo muito cedo, não raro fazendo duras
objeções a Lula e ao governo como um todo.
A greve de fome do bispo de
Barra sintetizou as aspirações frustradas desses descontentes. Mas nem por
isso o bispo deixou de se confessar petista de muito tempo e de continuar a
sê-lo. Apesar de ser o problema da transposição das águas um problema
infinitamente menor do que o espetáculo da apuração da larga e espantosa
corrupção no partido, o bispo ainda tem esperança de salvar Lula das garras
do demônio do capital, como declarou na semana passada. A opção do bispo
pelo martírio político como meio de governar sem mandato o governante com
mandato, contém uma concepção política ingênua, mas nem por isso menos
eficaz.
Essa concepção primitiva e
pré-política da política, pensada como um movimento pendular entre o bem e o
mal, e o governante concebido como monarca de um absolutismo popular, não
muda o cenário político dramático e grave com que nos defrontamos. Somada
aos efeitos populistas do Bolsa-família, poderá presidir nas bases remotas
do país, distantes das ilusões da modernidade, as eleições do próximo ano.
Eleições que poderão ser usadas mais uma vez para tentar tirar Lula (e o PT)
do cerco do demônio na suposição de que corrupção é apenas pecado venial e
não crime.
* José de Souza Martins é
professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP
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Referendo sobre o
desarmamento
O “SIM” à vida na visão filosófica
de Hobbes e Bobbio
Por Marcelo Cunha
No dia 23 de outubro próximo,
o povo brasileiro exercerá mais uma vez o direito sagrado de impor ao Estado
de direito sua vontade: é o referendo sobre o desarmamento.
A história tem algo a ensinar
a este povo que, como Nação, tem apenas 500 anos? Achamos que sim, e
contamos com “a força” de dois filósofos para explicar o motivo: o inglês
Thomas Hobbes (1588-1679) e o italiano Norberto Bobbio (1909-2004).
Há 354 anos, ou em 1851, ou
há três séculos e meio (!) Hobbes escreveu o Leviatã . Na Obra, o filósofo
procura mostrar o que poderia significar o predomínio do direito natural,
onde todos têm direito de fazer o que querem e, paradoxalmente, ninguém tem
direito a nada, pois a qualquer momento, qualquer um tem o direito de agir
por impulso e, eis a máxima hobbesiana, “o homem é o lobo do próprio homem”.
Nesse sentido, Hobbes percebe
é que o Estado contratado (artificial, mas humano) é a oposição ao Estado
selvagem. No Contratado cada um, individualmente, cede um pouco de sua
liberdade para que todos possam desfrutá-la coletivamente. O Estado, como um
Leviatã, recebe esse pouco de liberdade e a transforma no espaço público,
garantindo assim o espaço de todos e para todos.
Há três anos, portanto 350
anos depois de publicado o Leviatã, dois filósofos italianos, Maurizio
Viroli (1952-) e Bobbio reuniram conversas de quem tem uma visão liberal do
mundo contemporâneo, especialmente da Itália, no livro “Diálogos em torno da
República: grandes temas da política e da cidadania”. Coincide que, no
capítulo “temor a Deus, amor a Deus”, Bobbio discorre sobre a diferença de
um Estado de direito e uma sociedade despótica. Vejamos:
Em um Estado de direito, uma
das grandes funções das leis é estabelecer como deve ser usado o monopólio
da força legítima que o Estado detém. Em uma sociedade despótica, não há
nenhuma regra; o príncipe pode punir sem medo e sem limites. O seu poder de
punir é arbitrário. (...) No Estado de direito, o direito deve regular o uso
da força de que o Estado dispõe, de modo que seja uma força não arbitrária.
(p. 64) (grifo nosso)
Como vemos, o ser humano está
sujeito à força em qualquer circunstância. Não obstante, devemos nos
conscientizar que não vamos às urnas para optar pelo anarquismo (ausência
total de Governo). Vamos às urnas para decidir quem tem o direito de exercer
a força: o Estado (que somos todos nós!) ou o indivíduo que pode agir
impulsivamente por ter uma arma disponível, inclusive contra pessoas da sua
família.
Os Senhores da Guerra tentam
levar nosso País e nosso povo a um falso dilema maniqueísta, no qual o que
estaria em jogo “é o direito ou não de cidadão se defender de bandidos”. Na
verdade, o que eles defendem são os lucros de uma indústria que visa a
morte.
Ora, quando num Estado de
direito a autoridade pública (civil ou militar; federal, estadual ou
municipal; concursada ou não, eleita ou não, etc.) comete um ato que
ultrapassa o limite aceitável, segundo a norma jurídica, o prejudicado tem o
direito (e dever) de reclamar. As relações no Estado de direito são bem
definidas, cidadão é cidadão e bandido é bandido, mesmo que a princípio faça
parte do aparato burocrático do Estado.
Por outro lado, num Estado
selvagem, não há diferença entre bandido e cidadão, as ações resultam no que
expressou Gandhi: “olho por olho, e o mundo acabará cego”. Nesse sentido,
vale a pena assistir e divulgar o filme “Abril despedaçado” , em que essa
frase de Gandhi pôde ser dramatizada no contexto em que duas família se
matam por gerações apenas por rixa, porque acham que têm o direito de
exercer a força. É a consumação do Estado selvagem.
Nosso mundo, o do século 21,
é mais justo (sob todos os aspectos!) que o de Thomas Hobbes, no século 17.
Nossa obrigação é melhorá-lo, enriquecê-lo e humanizá-lo cada vez mais. É
preciso olhar para frente e enxergar um ser humano cada vez mais cidadão. A
própria civilização leva a uma conduta em que o Estado de direito (que
pressupõe direitos e deveres) prevalece como forma de solidariedade.
O voto no Sim, no 2, é a
opção pela paz, pela a vida, pela civilização, pelo exercício do social em
detrimento do selvagem. Em vez do unilateral, o Sim é o bilateral, uma
convivência contratual.
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Pensando o Brasil
A esperança vencendo a decepção
Por Dom Pedro Casaldáliga
Está difícil pensar o Brasil. Os últimos acontecimentos, desmoralizando o
Congresso Nacional –que deveria ser para o povo a grande referência da
“ordem e o progresso” e estraçalhando o PT –que parecia ser “a esperança
vencendo o medo”, tornam difícil pensar o Brasil. Que Brasil temos? Que
Brasil queremos? Que Brasil podemos ter já? E que Brasil forjamos para um
futuro próximo, um verdadeiro “Brasil de todos”?.
Os grandes meios de comunicação e os grandes do dinheiro se refocilam com
essa situação do PT e também do Lula, que pelo PT chegou à presidência.
Esses grandes são hipócritas e cínicos. A corrupção vem de longe e antes era
maior e era a corrupção deles. Só que não aparecia ou não era julgada.
Também é necessário sublinhar, para que certos partidos não se considerem
agora imaculados e salvadores, que ainda o PT continua a ser o maior partido
do povo e para o povo, no Brasil, e que há muito PT, sobretudo nas bases,
que não é corrupto.
Certamente, o PT (e com ele o Governo de Lula) tem que reconhecer suas
culpas e aprender a lição. Certas alianças só levam a certas concessões e a
certas claudicações. O fim justo não justifica os meios injustos. E o
Partido e o Governo não são o fim. A reeleição não é o fim. Não se deve
assegurar o poder para continuar no poder mas, em todo caso, para servir ao
povo. Já sabemos, por longa experiência mundial, que o poder facilmente
corrompe. Rubem Alves escreve muito sabiamente: “A política, como vocação, é
a mais nobre das atividades do ser humano; como profissão, a mais vil”.
O PT–cúpula tem que entender também que o Brasil povo não precisava nem
queria continuar sendo uma colônia do FMI ou do BM, nem um escravo do
sistema financeiro, nem uma marionete das elites privilegiadas. Para isso,
bastava continuar com os partidos da direita e suas corrupções de sempre. O
Brasil–povo necessitava e queria se libertar do sistema neoliberal, das
multinacionais espoliadoras, das privatizações entreguistas, do arrocho
salarial, da oligarquia sugadora, da política podre, em fim. O Brasil-povo
necessitava partir para outra política. Para uma política popular e social,
a cujo serviço estaria a política econômica. Já chega de ter que reconhecer
que o Brasil está bem quando o povo está mal. A política não é para o
governo e o governo não é para o capital; são, devem ser, para o povo, para
a vida. Primeiro a mesa de família, depois a exportação. Primeiro as dívidas
internas, essenciais; depois a dívida externa. E, no dia a dia, menos
publicidade e mais reforma agrária e mais emprego e mais quilômetros de
estrada boa e mais SUS eficaz em todos os cantos do País...
Os sonhos do povo e as promessas da campanha foram traídos. A esperança
estava vencendo o medo, quando a decepção caiu sobre o povo, mais uma vez,
como uma fatalidade histórica. Será mesmo que este Brasil de todos os
jeitinhos não tem jeito?.
Entidades políticas, sociais, sindicais, culturais, religiosas, a cidadania,
a sociedade civil, vêm lançando manifestos e programas. “Ética na política.
Pelo fim da impunidade, por justiça para todos e todas”, é o manifesto de
várias entidades ecumênicas, como a CESE, o CONIC, a CLAI. Mais de 50
movimentos sociais lançaram a “Carta ao Povo Brasileiro”, “contra a
desestabilização política e a corrupção; por mudanças na política econômica,
pela prioridade nos direitos sociais e por reformas políticas democráticas”.
O deputado federal Ivan Valente (PT/SP) escreve oportunamente: “Podemos
estar perdendo uma chance histórica de mudança... Se trata de saber se o
projeto histórico que levou o Lula ao governo federal foi derrotado em
quanto projeto político, por não ter feito a mudança social a que se
comprometeu”. E o sociólogo Emir Sader concretiza: “É preciso fazer um
balanço autocrítico... Retomando os temas fundamentais da esquerda,
começando pela ética na política e pela prioridade das políticas sociais,
mas, também, por um modelo econômico centrado no mercado interno de consumo
popular, pela reforma agrária, pela economia familiar camponesa, pela luta
contra os transgênicos, pelos direitos dos povos indígenas, pela defesa da
Amazônia, pelo orçamento participativo, por uma reforma política democrática
e pluralista, pela integração latino americana e do Sul do Mundo...”.
Tudo isso? Pois sim, tudo isso, cada dia, vencendo o medo, vencendo a
decepção, dando cada um de nós tudo de nossa parte e exigindo de quem pode e
tem que dar, porque é autoridade, com responsabilidade maior.
Além de vencer a decepção, temos que vencer também o servilismo, limpar a
própria corrupção quiçá e reforçar nossa participação na política, que
continua a ser “uma das maiores expressões do amor cristão”, a pesar de tudo
o que se passa no Congresso e aparece na televisão e brota no coração da
gente.
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